quinta-feira, 19 de março de 2009

Cena

Ainda ontem eu vi uma senhora que ia, a pé, comprar pão numa padaria próxima. A senhora, muito graciosa, tinha um perfume doce, quase malicioso. As bochechas rosadas denunciavam a pele macia, delicada, frágil. Seus cabelos brancos eram tão suaves ao toque do vento. E seu rosto possuía linhas, traços, marcas de toda uma vida ora sofrida, ora mágica. Trazia pela mão uma criança de olhos grandes que pareciam querer devorar o mundo. Olhos afoitos, curiosos, jovens. Pacientemente ela explicava à criança a respeito das coisas da vida. Contava-lhe os sonhos que teve, os lugares que visitou, as pessoas que conheceu, os amores que viveu. A menina, cujos olhos agora me fitavam, parecia querer ser gente grande e contar à alguém a experiência que ainda não viveu, só pelo gostoso prazer de contar alguma coisa. A senhora, gentilmente acenou para outra pessoa que passava apressada pela rua. No chão já se podiam ver algumas folhas secas anunciando que as águas de março finalmente fechavam o verão e um outono próximo chegava trazendo uma brisa fresca, quase fria. O sol ia se despedindo megestralmente como fazia todas as tardes, incansavelmente.
E aos poucos aquelas vidas femininas iam sumindo lentamente no horizonte da aurora urbana. Calmamente, notei que tudo passaria assim, diante dos meus olhos. E ficariam registrados para sempre os lábios daquela senhora que nada me falou, mas tudo me disse e os olhos daquela criança que, inocentemente me mostrou o mundo.
Só não pude saber se, a senhora que carregava a menina pelas mãos, ou a jovem que conduzia aquela idosa pelo caminho. Eram, em seus íntimos, cúmplices de si.

Laura Santos

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